A montante do Stress

“Se queres mudar alguma coisa, muda primeiro aquilo em que acreditas”

É habitual procurarmos respostas e estratégias rápidas para contornar as dificuldades que se colocam nas encruzilhadas da vida. Procuramos também soluções milagrosas que permitam gerir a nossa vida de forma mais eficaz em busca de obter resultados extraordinários, com o menor esforço possível. Sabemos que a lei do menor esforço raramente se adequa à complexidade da mudança de comportamentos e, dessa forma, quando queremos fórmulas imediatas para mudar hábitos adquiridos durante anos estamos a fazer pelo menos duas coisas:

  1. A ter total desconhecimento do processo de mudança no ser humano
  2. A comprar “Banha da Cobra”

Relativamente ao primeiro ponto, podemos dizer que a mudança é um processo complexo que para acontecer pressupõe a existência de algumas variáveis. Destaco, desde já, a consciência clara do que se pretende mudar e em que direcção e um desejo intenso de mudar que permaneça inviolável às intempéries e dificuldades que irão surgir durante o processo de mudança. Este será mais ou menos doloroso mediante os propósitos e o alcance dessa mesma mudança, sendo que o arcaboiço afectivo e intelectual (a estrutura de personalidade) facilitará ou dificultará esse processo, conforme a experiência de desenvolvimento psíquico de cada um.
No segundo ponto, temos consciência que algumas ditas fórmulas são muitas vezes interessantes e estimulantes e funcionam para algumas pessoas como “gatilhos de mudança”. Agora, estas técnicas /estratégias não podem ser “vendidas” sem a prévia explicação do processo de mudança, isto é, este conhecimento por si só não é gerador de mudança, temos que desencadear estratégias para mexer com aquilo que sustenta os comportamentos e as atitudes, ou seja, as crenças - aquilo em que acreditamos condiciona e estrutura as nossas acções/comportamentos. Assim, se quisermos mudar, temos que mudar primeiramente aquilo em que acreditamos. Se apenas quisermos mudar comportamentos sem mexer nas nossas crenças, essa mudança não acontecerá efectivamente ou então será pouco consistente e vulnerável às volatilidades do contexto.

A razão deste preâmbulo à temática de gestão do stress deve-se sobretudo ao facto de o mero elencar de estratégias e técnicas para gerir o stress em si mesmo servir pouco para produzir mudanças realmente transformadoras e, acima de tudo, douradoras. Mesmo que coloquemos em prática por exemplo, uma técnica de relaxamento de forma a reduzir a tensão acumulada, em si mesmo ela apenas será um paliativo que atenuará o estado de tensão naquele momento até o “copo voltar a encher”. Aquilo que se defenderá neste artigo está a montante deste processo, ou seja, como poderemos reestruturar as nossas crenças de maneira a conseguir mudanças verdadeiramente significativas e duradouras na nossa qualidade de vida.
Assim, o que apresentaremos de seguida são algumas hipóteses/ perguntas relativamente a algumas crenças que podem estar na base dos comportamentos geradores de stress, sendo que a nossa intervenção primeiramente deve centrar-se na reestruturação dessas crenças.
O intuito não é dar-lhe respostas, mas sim fazer boas perguntas que o levem a questionar as suas crenças e o instigue a reflectir como poderá transformá-las em crenças que permitam melhorar a sua qualidade de vida.

Crenças

Perguntas para reestruturação de Crenças

“A maior parte das mudanças que são necessárias na minha vida não dependem exclusivamente de mim”

O que depende de si e o que não depende? Daquilo que depende de si, o que já fez? E que resultados obteve? Usou sempre a mesma estratégia? Existem outras estratégias que pode utilizar? Já alguma vez definiu objectivos para essas mudanças? E como foram definidos? Foram específicos? Podiam ser medidos e atingidos? E eram realistas? Desistiu logo, uma vez que não conseguiu os resultados pretendidos?
Daquilo que não depende de si, pode influenciar ou persuadir alguém que o ajude a concretizar os seus objectivos? Já o fez?

“As exigências profissionais estão a aumentar exponencialmente sem que eu possa fazer nada”

Quando lhe apresentam novos projectos ou novas tarefas costuma negociar ou aceita sem negociações?
Consegue dizer “não” quando sente que essa tarefa não é da sua responsabilidade?
Até que ponto é que o seu “ego” gosta de sentir-se importante com o atribuir exponencial de mais responsabilidade/projectos/tarefas?
Tem receio de algum tipo de represálias se disser “não”?
Acredita que para singrarmos profissionalmente temos que trabalhar pelo menos 12 horas por dia? Se respondeu Sim, tem consciência dos desequilíbrios que isso provoca nas outras áreas da sua vida (família, saúde, etc.)?

“Não tenho tempo para praticar exercício físico”

Gosta de praticar exercício? Tem realmente noção dos malefícios de uma vida sedentária? Tem a noção que quando algo é prioritário para nós, arranjamos sempre tempo? Pense em algo que realmente gosta, que adora e que não pode passar sem, consegue ou não arranjar tempo para o fazer? Quer realmente praticar exercício físico? Existem outras opções para além do ginásio para praticar desporto? Tem possibilidade de fazer caminhadas em alternativa a frequentar desportos “indoor”? Tem espaço em casa para ter uma bicicleta? Já pensou em praticar exercício que sinta um prazer especial? Tem noção que quando dizemos que não temos tempo é uma “desculpa” que estamos a dar a nós para não sentirmos sentimento de culpa? E que quando queremos alguma coisa (mesmo!) arranjamos sempre um tempo para o fazer?

“As empresas exigem, exigem e exigem e não se preocupam com a vida familiar”

Já ouviu alguém na sua empresa dizer tal coisa? O que é que já fez para conciliar a vida pessoal com a vida profissional? Ao longo do dia, recorda-se que se perder tempo com situações menos importantes está a “roubar” tempo à sua família? Já propôs alguma ideia na sua empresa para conciliar a família e emprego?

“O trânsito é uma das principais fontes de stress e não posso fazer nada contra isso”

Já fez alguma coisa para fugir aos engarrafamentos (ex: sair mais cedo de casa)? Os transportes públicos podem ser opção? Já que não tem hipótese em fugir do trânsito, por que não aproveitar para relaxar (colocar um CD de musica clássica) ou actualizar-se (áudio Books)?

“A maioria das tarefas diárias é urgente e para ontem”

Costuma fazer planeamento? Tem capacidade para filtrar o que é realmente importante do que não é? Sabia que 20% das suas tarefas “core” originam 80% dos seus resultados? Será que gasta 80% do seu tempo nos 20% de tarefas mais importantes?

“O meu chefe enche-me de trabalho”

Tem dificuldades em dizer “não” a pedidos de um superior hierárquico? O que aconteceria se o fizesse, de forma assertiva? Tem subordinados a quem possa delegar? Por que não faz?

“Não vale a pena fazer planeamento, pois ele nunca se cumpre”

Quando faz um planeamento costuma “colocar o Rossio na Rua da Betesga” (muitas tarefas num curto espaço de tempo)? Considera os imprevistos e os desperdiçadores de tempo nesse planeamento? Faz o planeamento por escrito ou apenas mental? Tem noção que a nossa memória nos prega partidas quando o planeamento é apenas mental?

“É impossível sair a hora com todas as exigências profissionais”

Consegue controlar durante o dia os imprevistos que surgem? Já pensou em poder controlá-los? E os diversos desperdiçadores de tempo, já fez alguma coisa para os controlar? As reuniões decorrem no tempo esperado ou prolongam-se para além da hora? Costuma ter compromissos assumidos para depois da hora de trabalho? Já pensou que isso poderia ajudá-lo a sair a horas?

Sabemos que o estado de Stress é originado por uma série de causas, muitas delas internas (crenças/sentimentos) ou externas (exigências de uma economia concorrencial e em constante mudança). Neste artigo sublimámos as chamadas atribuições causais internas, aquelas que dependem de nós. Desenvolvendo crenças mais flexíveis, mais adaptativas e acima de tudo mais proactivas, permitir-nos-á ser o timoneiro do nosso barco e assim podermos antecipar ou evitar as tempestades geradoras de Stress, passando por elas de forma incólume.

Nuno Gonçalves (Formador)