A Psicologia Positiva: organizações saudáveis, optimistas e… felizes

A questão da Performance (necessária e desejada) dos indivíduos, equipas e organizações, sempre foi confrontada com as análises mais humanistas, apreciadoras da motivação, do bem-estar e da valorização pessoal. Este confronto, não raras vezes, colocou numa perspectiva antagónica, Performance e Felicidade pessoal. Com efeito, muitas vezes a tradicional conotação do trabalho com os atributos “obrigação”, “esforço” ou “sacrifício”, não tem permitido, infelizmente, a discussão centrada nos factores de alegria, optimismo, empenho e prazer pessoal no contexto profissional.

Ora, de há uns anos a esta parte, cada vez mais académicos e gestores têm procurado fazer a ponte e estabelecer nexos de causalidade evidentes entre os referidos atributos positivos (optimismo, esperança e felicidade) e o bom desempenho, abordando algumas questões:
- A “vida com prazer”: perceber como as experiências óptimas, caracterizadas por emoções positivas e pela imersão nas tarefas executadas, podem conferir maior satisfação, auto-estima e desempenho superior em todas as dimensões da vida;
- A “vida com significado”: analisar como o sentido de missão e de pertença e a convicção no papel assumido, podem ajudar cada um a encarar as suas actividades com entusiasmo e sentido de continuidade (percepcionando que se está a contribuir para algo que transcende o indivíduo e que realmente vale a pena).

A Psicologia Positiva, como corrente académica inovadora, veio trazer uma maior estruturação a estas análises, através de estudos científicos e observações empíricas. Trata-se de uma abordagem alternativa à psicologia tradicional, mais orientada aos défices e às patologias, em suma, àquilo que é disfuncional. Desta feita, coloca-se a ênfase naquilo que caracteriza os seres humanos (e os seus sistemas) no seu melhor: aquilo que é virtuoso, as forças, o carácter e as crenças existentes. Algumas evidências podem ser já comprovadas, a nível das organizações. De facto, a institucionalização (ou a aculturação) de valores fortes, a valorização da história e dos seus pontos de sucesso mais relevantes e o sentido de missão, contribuem, de forma clara, para gestão da mudança mais saudável e eficaz. Por outro lado, temos o incremento da resiliência – essa competência cada vez mais valorizada, que significa a capacidade de resistir a elevados níveis de pressão, mantendo as características e aptidões originais. É patente que, com ”barreiras de conforto” constituídas pelos atributos positivos, tornar-se-á mais fácil resistir à adversidade, a compreender o sentido dos maus momentos e a ver uma oportunidade em cada desafio.

Neste contexto, a nível dos sistemas organizacionais, alguns atributos positivos podem ser distinguidos:
- Visão de futuro, com optimismo e esperança na superação dos desafios;
- Inspiração e abertura para a criatividade, sempre na busca de novas possibilidades;
- Coesão da equipa, coragem e sentimento de pertença e de compromisso;
- Consciência do controlo da realidade, assumindo a esfera de responsabilidade e autonomia de cada um e não desperdiçando energias (e desculpas) naquilo que é não influenciável;
- Comunicação transparente, até nas partilhas de emoções;
- Ciclos de decisão assumidos e partilhados.
 
Assentando nestas premissas, alguns instrumentos têm sido desenvolvidos, com vista a materializar estas abordagens nas organizações. Um dos mais conhecidos, o Appreciative Inquiry vem, numa óptica muito particular, aferir formas de melhor descortinar e mobilizar forças e vantagens competitivas, compreendidas por todos. Através do modelo 4D (Discovery, Dream Design, Destiny) é possível envolver todos os intervenientes na construção de processos de aprendizagem, de optimização do seu potencial e da consolidação de consensos para uma visão de futuro. Como? Através da construção de uma nova base comunicacional, em sessões de grupo estruturadas, em que a própria linguagem propõe (antecipa?) a realidade: valorizando o passado, apreciando os sucessos e a sua base, enquadrando o presente (aos olhos dos vários stakeholders) e perspectivando o futuro (sonhado, desenhado e passível de ser alcançado).
 
Não sendo eu um profissional de Psicologia nem tendo presunção para tal, não irei pronunciar-me sobre o potencial alcance desta corrente nas práticas de gestão empresarial e, em particular, na gestão do capital humano. Mas quer parecer-me que será muito útil para, pelo menos, alargar os nossos horizontes e mudar forma como olhamos para as organizações, sempre procurando lacunas e negligenciado por vezes, “the big picture” global e as nossas forças e virtudes, com todo o seu potencial de esperança inerente. Provavelmente, nos nossos diagnósticos e intervenções, teremos de começar a ver com outros olhos!

Carlos Sezões
Managing Director da LearnView